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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

United Fashion – uma Aparição Mulçumana na Finlândia

Refugiados e imigrantes têm chegado à Europa nas ultimas décadas, e continuam mantendo a maneira de vestir do país de origem, o que demonstra a origem cultural, religiosa e étnica de cada uma dessas pessoas. Desde da década de 80, começaram a chegar novos refugiados vindos do Oriente Médio e da África para a Finlândia.
Signos islâmicos se tornam visíveis no dia-a-dia da Finlândia alguns finlandeses estão se convertendo ao Islã. As imagens da mídia têm tendência a influenciar a fonte principal de “conhecimento” sobre os mulçumanos, tais imagens estão longe de refletir a realidade do cotidiano mulçumano.
Os signos caracteristicamente do Islã representam parte importante do vestuário feminino mulçumano, porem, estuda-los não basta para compreender o modo como mulheres e garotas constroem sua aparência e como se sentem quanto a isso.
O vestir existe de maneira objetiva, mas a impressão por ele criada reside na mente da pessoa que o veste ou que o percebe. Estamos mais interessados no modo como as mulheres e as adolescentes percebem a si próprias em suas roupas.
Para as mulheres finlandesas e para as do Oriente Médio, a mudança não significou desistir de toda a sua vida pregressa, já que a sua experiência cultural continua a marcar presença em seu guarda-roupa, de algum modo, pelo menos.
O modo como as mulheres mulçumanas finlandesas compram suas roupas é condizente com o que sabemos sobre os hábitos de mulheres nascidas na Finlândia no que diz respeito a roupas em geral. Roupas confortáveis e atemporais, e que não chamem muito a atenção são as mais apreciadas. Novas roupas são adaptadas ao guarda-roupa existente, e o estilo pessoal muda, lentamente. Mais por um sentido de responsabilidade do que por interesse na moda elas tendem a se vestir “com graça”, essas mulheres fino-mulçumanas continuam a comprar em lojas de roupas “ocidentais comuns”, pois procuram roupas que cobrem o corpo de maneira decente, e a maior parte delas rechaça o uso de calças ou jeans.
Em seu contato com a cultura finlandesa dominante, mulheres mulçumanas não usam muitas jóias e nem se esforçam para se embelezarem, ao contrario, continuam fiéis à sua cultura, as mulheres imigrantes usam jóias opulentas, uma vez que o ouro é altamente valorizado na cultura islâmica.
Mulheres somali enfatizam que é mais comum vestir a hijãb na Finlândia do que era na Somália antes delas deixarem o país. Esse parece ser o caso de outros paises Algumas garotas somali só conhecem a hijãb no modo como ela existe na Europa.
O clima, especialmente o inverno, é uma razão para a descontinuidade do vestir para quem quer que seja proveniente da África ou do Oriente Médio. No entanto, o clima não explica a mudança no vestir de mulheres somali, uma vez que mulheres adultas cobrem suas roupas de inverno ou de verão com um grande jilbãd. A resistência à cultura ocidental não é a razão para se usar uma hijãb na Europa. A outra razão para usar o hijãb está no compromisso reforçado com o Islã após todos os sofrimentos ocasionados pela guerra civil na Somália. As mulheres já haviam começado a adotar roupas modestas e frouxas, e com mangas longas, mesmo antes da guerra civil, mas não o scarf ou outras formas de véu que lhes deixassem mais cobertas.
Desde que a moralidade islâmica se baseia na responsabilidade pessoal existe a possibilidade de se trajarem de maneira individual. As mulheres discutem o vestir e o modo como às exigências religiosas devem ser interpretadas. Sendo ambíguo o conceito da hijãb, ele dá vazão a numerosas interpretações, sendo a mais comum à afirmação de que suas vestes deveriam agradar a Alá.
Pesquisadores da moderna mulher mulçumana observam que mulheres intelectuais estão interessadas em descobrir o que vem a ser o Islã e qual o seu efeito sobre o vestuário. A individualidade não significa necessariamente uma diferença discernível em roupas peculiares. Diz muito mais a respeito a um sentimento positivo do self. As experiências do trajar feminino de tempos passados são mantidos nas suas memórias e afetam suas escolhas em vestuário no futuro.
Vale observar que a percepção e os sentidos são bem-discutidos, ao falar sobre aspectos individuais na aparência mulçumana. O detalhe sutil, que pode passar despercebido a um olhar finlandês, é o modo como a garota iraquiana abre o scarf quando em visita ao templo. Ela o acha completamente diferente dos véus somali, e o fato de essa diferença existir faz sentido para ela.
Entre as adolescentes muçulmanas, as que vestem saia longa e scarf são as que demonstram um interesse mais profundo pelo vestir e que estão dispostas a refletir seriamente sobre a sua relação com o vestir. Enquanto todas as roupas e o modo como elas cobrem o corpo demonstram o seu compromisso com a cultura muçulmana, o scarf é um veiculo importante para a expressão de uma individualidade. Como o scarf é disposto em volta do rosto, as garotas levam algum tempo para escolher a cor que melhor combina com sua compleição e aparência.
A Finlândia é um país pequeno, e reduzidas também são as comunidades de imigrantes. Algumas garotas sentem-se controladas pela comunidade em que as pessoas se conhecem muito bem enquanto suas primas em paises maiores têm mais liberdade de conduta no vestir. Essa concepção de liberdade e controle, no entanto, não diz respeito às potencias pressões oriundas da maior parte da população, e sim muito mais reforçam a conformidade no interior do grupo.
Em um pequeno país do Ocidente, como é o caso da Finlândia, há um mercado limitado de estilo que têm a predileção das mulheres muçulmanas. Esse fato exerce um efeito sobre até que ponto as mulheres mulçumanas podem expressar sua individualidade e o seu próprio gosto. Essas limitações são mais enfrentadas pelas imigrantes muçulmanas.
A mulher muçulmana, de modo geral, tem adotado uma variedade maior do que outras mulheres finlandesas nos modos de adquirir suas roupas de fontes diversas, algumas têm suas roupas feitas por um costureiro ou costureira, mas isso não é comum, em razão do custo da mão-de-obra especializada.
O modo como mulheres e adolescentes muçulmanas na Finlândia parecem-se e o modo como compõem a sua aparência refletem diferentes sistemas de moda e de origens de moda,
Todos os estilos de vestir, que são “comuns” a mulheres muçulmanas na Finlândia, não representam o que é pensado por uma (única) moda mundo (de origem ocidental). Novos estilos do vestir originam-se nos paises mulçumanos do Oriente Médio e disseminam-se por toda a Europa, quando não pelo mundo inteiro. Mulheres e garotas na Finlândia adotam essas modas independentemente de seu país natal. O mundo muçulmano é tipicamente representado por scarves e saias longas, com a moda mundo ocidental representada na parte superior do corpo e no calçado.
Mesmo as mulheres que cobrem a maior parte do corpo com o jilbãd vestem alguns itens de roupas ocidentais debaixo dela, embora desses itens só mesmo o sapato fica visível.
A moda muçulmana e a ocidental não podem ser claramente divididas em dois sistemas completamente diferentes. Muito embora países árabes, em especial a Síria, pareçam ser o centro da moda para o mundo muçulmano contemporâneo, há muita fluidez, além de sincretismo e inovação. Longas saias e scarves podem ser tomados de qualquer sistema de moda sempre que estiverem disponíveis e se adequarem ao gosto próprio da usuária.
O hijãb (véu de qualquer tamanho ou estilo) é considerado uma peça do vestuário feminino adulto, não se espera que garotinhas ou garotas jovens façam o uso dele, mas se tem como ponto pacífico que é melhor começar a usar um véu de algum tipo quando estiverem na idade dos 12 até os 25 anos.
Para uma adolescente e uma mulher adulta o uso de um scarf, geralmente acompanhado de saia longa, e a recusa ao uso de calças, implica tanto um comprometimento com o Islã como, ao mesmo tempo, uma liberdade pessoal. Uma jovem com um scarf está adequadamente trajada, e com isso ela é relativamente livre para ir e vir em situação de independência. Para as famílias, o uso de scarf e saia longe significa decência e confiabilidade no seio da comunidade.
Do ponto de vista da fenomenologia, os fatores que compreendem um mundo interno do indivíduo, tais como valores e crenças, não podem ser separados da realidade exterior, uma vez que são criados em um espaço cultural compartilhado. O papel do espelho e importante para decidir-se se o fora parece estar em harmonia com o que se sente no intimo. Assim, as mulheres literalmente negociam suas próprias lentes de self, a percepção presumida de sua aparência, com um par de lentes reais.
A sensação interna do self e do vestir é importante do ponto de vista fenomenológico. Embora mulheres muçulmanas manifestem a tendência de cobrir o corpo em publico, isso não significa que estejam livres de sensações sobre o seu corpo e reflitam sobre ele em referencia a ideais ocidentais de uma figura magra. Da mesma forma que as mulheres finlandesas, de um modo geral, as mulheres muçulmanas revelam-se descontentes com seus corpos quando ganham peso, e distúrbios alimentares são um risco para garotas jovem tanto quanto o são no Ocidente.
O “vestir étnico” é o oposto da “moda mundo”, e esse vestir o é pelos membros de um grupo para distingui-los dos membros de outro, focalizando uma diferenciação e “um existir nosso”. O termo “étnico” pode ser utilizado para ilustrar diferenciação e identidade grupal. Embora a noção de que “o vestir étnico indica modos comuns ou compartilhados de vestir que identificam um grupo de pessoas que compartilham antecedentes culturais e uma herança comum” pareça clara, em uma situação real da vida é difícil distinguir o vestir étnico do religioso e a moda em um sentido amplo, que não seja propriamente o ocidental.
Enquanto a religião sirva como o principal guia para o vestir da mulher muçulmana, a etnicidade ou a cultura do país natal que antes se tinha pode também exercer um efeito sobre o modo como tal orientação é seguida. O indicador étnico mais freqüente é o jilbãd da mulher somali, ele é um modo reconhecível de criar e manter a coerência de grupos e a resistência à cultura ocidental.
Mulheres muçulmanas na Finlândia podem ser vistas como em um cruzamento entre formas finlandesas de cultura ocidental e de suas próprias historias, em suas raízes nacionais, étnicas e religiosas. Mulheres criam e expressam o seu próprio tempo e espaço com o vestir. Ou ainda, o vestir pode ser o veículo para se divorciar do passado, dando forma a uma nova vida e consciência religiosa.
De acordo com diversos pesquisadores, a sexualidade divide o mundo muçulmano em esferas de homens e mulheres. O vestir é a proteção da vida familiar e moral. Para as mulheres muçulmanas, o scarf, ou outras formas de hijãb, é o veiculo que fornece as mulheres e jovens muçulmanas na Finlândia e a liberdade de sair e cruzar com pessoas de ambos os sexos no local de trabalho e na escola. Com relação às imigrantes, essa liberdade parece ter sido observada por representações da cultura finlandesa dominante.
As atitudes e crenças, juntamente com o interesse de uma mulher pelo vestir determinam o modo como ela opta por se vestir. O desafio está em combinar seus mudos internos e externos no trajar, para encontrar o sentimento e a aparência do self. O uso da moda ocidental pode se tornar o sinal de que o mundo interno da usuária não está em total equilíbrio com a situação, ou que a usuária é imatura ou mesmo infantil. A modéstia no vestir, com ou sem a hijãb, não acarreta uma forma mutável ou um desinteresse pela moda. A mistura e a composição dos diferentes elementos em sua aparência formam um paralelo tangível com o modo como elas comutam entre as culturas, de modo muito mais fluente do que suas mães. Elas seguem a moda ocidental por meio de revistas de moda e visitas a lojas locais e modas muçulmanas pela TV via satélite e noticias de outros parentes em outros paises. Em relação às adolescentes finlandesas, elas se ocupam duas vezes mais em unir as duas modas.



Referência Bibliografica

SIVONEM, Ritva Koskennurmi; KOIVULA, Jaana; MAIJALA, Seija. United Fashion – uma Aparição Muçulmana na Finlândia. Fashion Theory – A Revista da Moda, Corpo e Cultura, São Paulo, V. 3, n. 4, pg. 77-93, Dez. 2004.

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